domingo, 23 de fevereiro de 2014

EMILY DICKINSON três poemas

Emily Dickinson (1830-1886)


Para preencher um Vazio
Ponha de volta Aquilo que o causou.
Baldado cobri-lo
Com outra coisa – sua boca vai
                                               Mais se escancarar –
Não se pode soldar o Abismo
Com ar


Eu nunca vi o urzedo,
Eu nunca vi o mar –
Mas posso tanto a urze
Como a onda adivinhar.

Eu nunca falei com Deus
Nem nunca o céu visitei –
Mas sei que o lugar existe –
Como quem já teve o ‘visto’
Em sua passagem de trem.


A percepção de um Objeto custa
Justo a perda do Objeto.
A percepção é, em si mesma, um ganho
Respondendo por seu preço.

O Objeto Absoluto – é nada –
A Percepção é que o revela –
Depois censura a Perfeição
Que tão longe se encastela.


DICKINSON, Emily. Uma centena de poemas: Emily Dickinson. Tradução, introdução e notas por Aila de Oliveira Gomes. São Paulo: T.A. Queiroz: Ed. da Universidade de São Paulo, 1984. p.83, 131

GIBRAN KHALIL GIBRAN

NA FLORESTA
Gibran Khalil Gibran (1883-1931)

Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes
E o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor

Na floresta não existe ignorante ou sábio
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber,
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas

Na floresta só existe lembrança dos amorosos
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor
Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue

Na floresta não há crítico nem sensor
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro,
a águia não diz: 'Que estranho' Sábio entre nós é aquele que julga
estranho apenas o que é estranhoAh, dá-me a flauta e canta!
O canto é a melhor loucura e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais
Na floresta não existem homens livres ou escravos
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: 'Ele é desprezível e eu sou um grande senhor'
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil

Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade
Quando o leão ruge não dizem: 'Ele é temível'
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço
do pensamento e o direito dos homens fenece como folhas de outono
Dá-me a flauta e canta!
O canto é a força do espírito e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis

Na floresta não há morte nem apuros
A alegria não morre quando se vai a primavera
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração
Pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o segredo da vida eterna e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

OS PSEUDO HEROIS DO MOMENTO NO BRASIL

Inês Lacerda Araújo


Deixando de lado vantagens e recursos que o Brasil tem (esperemos que não se esgotem, que sejam respeitados e cultivados com cuidado e responsabilidade), ao que parece nos encontramos como que emparedados por dificuldades.

Explico: o desemprego se situa em nível abaixo da média, porém o descontentamento está muito acima da média. Razões não faltam, recomeço da inflação, corrupção na política, ceticismo com relação à classe dirigente, sofrimento de grande parte da população com violência (no trânsito, nas estradas, nas ruas, ao chegar em sua própria casa!), prisões abarrotadas sem solução à vista, uma presidente (a) autoritária que ao mesmo tempo depende de seu tutor e mentor, deputados que só pensam na próxima eleição. E recentemente, o temor de sair para protestar e ser ferido ou morto por idiotas mascarados, que, agora sabemos, são paus mandados. A morte do cinegrafista Santiago custou R$ 300,00, somadas as quantias pagas aos dois rapazes!

Considerar que queimar bancos e lojas de automóveis acabará com o capitalismo é ignorância, irresponsabilidade e reles imitação de outros movimentos semelhantes que nada conseguiram, a não ser disseminar medo.

Vejamos, historicamente e socialmente falando, algumas questões sobre o capitalismo.

Empresas e indústrias surgiram do nada com o objetivo de semear desigualdade, injustiça, fome, pobreza?

Multinacionais norte-americanas e europeias são intrinsecamente más e prejudiciais à humanidade?

Há que se abolir todos os bancos, bancos oficiais inclusive, como o Banco do Brasil? E também empresas como a Petrobras?

Ao tempo dos reinados e impérios, desde os egípcios até Napoleão, o reino britânico, belga, czares russos não havia exploração e desigualdade, despotismo, miséria? Apenas no capitalismo começou a luta de classes?

Estas e muitas outras questões não passam pela cabeça fechada pela ideologia que impregna muitos de nossos herois intelectuais, sociólogos, filósofos, historiadores, enfim, os chamados intelectuais de esquerda.

Eles ainda querem "tomar o poder"? Pois bem, o PT, comprometido com a ética na política, com o plano de acabar com miséria, a desigualdade e a pobreza frutos do capitalismo (mas a favor, como diz o nome do partido, dos trabalhadores) e inspirado pelo socialismo de vertente cubana, hoje visa somente poder. O poder político, cargos federais, ministérios, todo o funcionalismo e as benesses que cargos proporcionam. Nem qualidade e nem o compromisso com a causa pública são invocados. Só interessa permanecer no poder. Para isso vale trazer o empresariado que também se beneficiará com contratos para realizar grandes obras, pelas quais recebem fortunas em troca de que? 

Pouco ou quase nada. Com a máquina pública deteriorada, nossos dirigentes começam, por debaixo dos panos, a  reconhecer que privatizar é a saída. Claro que sem usar o termo que outrora demonizaram, "privatizações do PSDB"... 

Demonizar o capitalismo, em que pesem seus defeitos e problemas, crises e desemprego, é descer sobre estudantes e jovens, uma cortina de fumaça, pegajosa, perigosa, até mesmo covarde.

Aos pseudo herois do momento, Genoíno, Dirceu e companhia, ao deputado que cerrou o punho levantado, vieram juntar-se intelectuais. Entre eles, destaque para Caetano Veloso vestindo máscara dos black blocs. Ele revelou um lado seu, é um mascarado mesmo, no outro sentido do termo. Uma bela voz em uma cabeça carcomida.

Não esqueçamos: o Brasil é uma democracia, é preciso fortalecer o regime democrático, especialmente em ano eleitoral. Escolher os mais dignos, creiam, eles existem.


INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

PASSARINHO







sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A IGUALDADE DOS HOMENS

Matias Aires (1705-1763)


Caminhamos com pressa e com gosto para o fim; semelhantes aos rios, que apressadamente correm para o mar, donde perdem a doçura, e a acabam. (...) O homem muda de lugar, mas não muda o ser de homem; em toda a parte é o mesmo, em nenhuma é mais nem menos; pode parecer maior, mas ser, não. O sol ao meio-dia brilha mais, não porque deixe de ser o mesmo, nem porque então tenha mais luz, mas porque esta faz mais efeito em um lugar, que em outro; no ocaso, e no oriente é o mesmo sol e a mesma luz, mas não parece o mesmo. Assim são os homens: em qualquer parte que os ponham, todos são iguais e uniformes; a diferença que há entre eles, não tem outro fundamento que o que vem da preocupação e do conceito; são duas coisas, e ambas vãs, porque nenhuma tem realidade. A fortuna pode armar o homem com hieroglíficos e adornos figurados, mas não o pode armar senão por fora; quem levantar as roupas, há de ver o engano e a suposição: não há de achar mais do que um homem como os outros, cujo ornato é pura fantasia, arbitrária, artificial e separável; a fortuna pode vestir, não pode formar; sabe fingir, mas não sabe fazer. O mesmo obséquio todo se compõe de um cerimonial imaginário, mudável, de instituição nacional e variante. O incenso que algumas vezes é símbolo da vaidade e da lisonja, primeiro que exale o seu perfume, arde, e no ar se extingue e se consome. Tudo o que nos recreia e nos atrai é exalação e fumo; por isso o emprego da vaidade toda consiste em dar substância às vozes, entidade ao modo, e corpo ao vento.


AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.92 e 95

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

EM QUE SENTIDO ESPÍRITO E/OU ALMA EXISTEM?

Inês Lacerda Araújo


Quem leu a postagem anterior, talvez tenha concluído que seria impossível falar de alma e espírito, se eles não existissem. Faz sentido atribuir qualidades como imortalidade, espiritualidade, invisibilidade, capacidade de pensar, de isolar-se no íntimo de seu eu, sem que haja tais entes, quer dizer, algo em si ao qual podem ser atribuídas a existência, a subsistência, a temporalidade, e outras categorias?

É preciso levar em conta duas possibilidades:
A primeira possibilidade, considerar que a resposta à pergunta "o que existe?" é: entidades com a capacidade ontológica de ser, de existir ou de subsistir são uma resposta evidente e imediata a essa pergunta. Espírito/alma existem, mas não do mesmo modo que uma mesa existe, que corpos de um modo geral existem. A natureza dessa existência seria a espiritual, incorpórea. Prova disso: somos seres pensantes, nosso espírito subsiste nas ideias, imaginação, vida interior, pensamento. Difere do corpo, portanto, também difere do cérebro e de suas complexas engrenagens. Descartes defendeu essa visão dualista do homem.

A segunda possibilidade: o sentido ontológico de alma/espírito é atribuível a facetas, a características da cultura humana, às ações, às situações desde as mais corriqueiras, até os ritos mais secretos, às celebrações mais solenes. Exemplos de atos de fala com emprego contextual compreensível e que não levantam problemas ontológicos, isto é, perguntas sobre se se trata de espírito "mesmo" e como é sua natureza, imaterial, pessoal, imortal, etc.

"Pedro é uma pessoa boa, tem um espírito conciliador"

"O Espírito dos povos evolui e se aperfeiçoa"

"Pobres almas inocentes dessas crianças que morreram nos bombardeios da Síria"

"Um raio de luz me transpassa a alma: não é à multidão que Zaratustra deve falar, mas a companheiros!" (Nietzsche).

"Espíritos elevados constroem um mundo melhor".

E inúmeros empregos dos termos, como "parece uma alma penada" sobre o aspecto lúgubre de alguém; "espírito de corpo", para corporativismo, e "espírito de porco" em um xingamento; e tantas outras de nosso uso diário, por vezes na poesia, na literatura, nos ditos populares.

Assim, há os que creem na alma como uma entidade pelo menos subsistente cuja natureza difere radicalmente da corpórea, e aqueles que partem de outro pressuposto, o da vida humana inserida em uma cultura, com seus signos, linguagem, atos de fala, jogos de linguagem, símbolos. Estes últimos não precisam elucubrar, apenas ver o que e como ocorrem as situações em que faz perfeitamente sentido se expressar com termos que se referem às capacidades de pensar, refletir, falar, dar sentido ao mundo, comunicar, decifrar, inventar, imaginar, e tantas outras. 

Como resolver a seguinte questão, para os adeptos da primeira possibilidade. Sentir prazer ou dor é corporal ou espiritual? A dor física e a dor moral, a dor de uma perda, em que diferem? Valores morais pertencem ao corpo ou ao espírito? 

Ou essa outra, para os adeptos da segunda possibilidade: depressão (doença inventada/diagnosticada pela psiquiatria) é física, cerebral, mental, espiritual, cultural, genética, inclassificável em um só gênero? 

E mais essa: por que faz muito mais sentido dizer "força de vontade" do que "força de espírito"?

Quero dizer uma coisa aos que menosprezam o corpo: desprezam aquilo a que devem sua estima. Quem criou a estima e o desprezo, o valor e a vontade? O próprio ser criador criou sua estima e seu desprezo, criou sua alegria e sua dor. O corpo criador criou para si mesmo o espírito como procedência de sua vontade  (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra).


INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

NOVO MANUAL DE TEORIA LITERÁRIA

Isaac Melo

“A característica definidora da literariedade de um texto é sua habilidade para desfamiliarizar, ou fazer estranho para nossos hábitos normais de percepção, a linguagem habitual que nós usamos para descrever o mundo. É o “estranhamento”.”

Rogel Samuel
in Novo Manual de Teoria Literária


Conclui empolgado a leitura de Novo Manual de Teoria Literária (Vozes, 2002). Rogel Samuel, além de grande romancista, como se revelou em O Amante das Amazonas (Itatiaia, 2005, 2a edição) e Teatro Amazonas (Edua, 2012), é um exímio crítico literário e estudioso de literatura, com vários trabalhos publicados. Apesar do nome “Manual”, à primeira vista, assustar, é um livro de linguagem acessível e cativante, sem, no entanto, deixar de ser profundo e acurado. Aliás, por saber que ele vem da pátria das águas, é oportuna a metáfora dos rios amazônicos para falar de sua escrita, a saber, por cima, revelam-se calmos e plácidos, porém, ao mergulhá-los, revelam-se densos, fortes e profundos.

O livro compõe-se de oito capítulos, indo desde os conceitos básicos da teoria literária até as teorias “pós-modernas”. Ao final, fica-se com o gosto de quero mais, tal o modo como o autor torna cativante o tema e, consequentemente, a própria escrita. Coisa que não é tão fácil, pois toda teoria traz em si aquela sensação de carga pesada. O que de fato é pesada, mas no caso do Rogel, o peso é compensado pela beleza da paisagem que ele nos oferece ou nos remete. O capítulo, por exemplo, dedicado à análise do ‘fenômeno’ dos best-sellers, do cinema e da TV é algo de uma destreza e sagacidade crítica incrível. Belíssima reflexão literária, que não deixa de ser filosófica. Aliás, outra característica da obra, a filosofia de mãos dadas com a literatura e, por Rogel, tão bem elaboradas, apesar de serem áreas distintas e independentes.

Aprecio e recomendo a todos os amantes das boas letras o Novo Manual de Teoria Literária de Rogel Samuel, obra que já algum tempo é familiar ao meio acadêmico. Trabalho bem elaborado e fundamentado, e que deriva de pesquisas do autor nos Estados Unidos, na França, e, principalmente, no Canadá, na University of British Columbia. E se alguém me disser como é estranho como estou sempre elogiando os livros de meus amigos, ao que, prontamente, respondo: entende-se, pois sujeitos que escrevem livros ruins não se encontram entre os meus amigos.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

LAMENTO INFORMAR

Roberto Gomes


Este é um mundo sem heróis e sem loucos. Já não se fazem loucos como antigamente, pois o discurso dos loucos não é politicamente correto. Todos trazem no bolso uma tabela de débitos e créditos, custos e benefícios, vantagens e investimentos. Calculam afetos e amizades, lucros e perdas, negociam os favores dos deuses em preces de aluguel.

Sartre? Aquele sujeito pequeno e feio, vesgo e roufenho, com suas centenas de páginas a respeito do ser e do nada? Nada disso. O pensador da hora usa oitenta palavras, vinte e duas frases feitas, duas ideias solitárias. É politicamente correto e não escandaliza a ninguém. Ama o que todos amam, aprova o que todo mundo aprova, cada um tem afinal seu direito a brilhar.

E Foucault? Não, um bicho muito louco. Deleuze? De modo algum. Os editores estão em busca de quem selecione frases otimistas mesmo em Schopenhauer ou no indefeso Pascal. Que o pensamento seja prêt-à-porter, um pijama folgado, um chapéu de aba larga.

O pensador da hora é bem alimentado e regiamente pago. É um homem feliz. Esguicha otimismo e espírito positivo. Nada de Gogol, Machado de Assis ou Proust. Produz textos como Narciso ordenha a si mesmo e extrai das tripas o livro mais digerível, a história mais palatável, o consolo para todos os males, passados e futuros.

Quanto aos políticos, nada de visionários que pregam no deserto. Os políticos devem ser embalagem pura, exterioridade absoluta. São perfumados, bem penteados, barba feita, usam ombreiras agudas, gravatas cintilantes, ideias toscas, verbo solto, paranoia triunfante. Nada de idealismos. O mundo é assim mesmo. Homens práticos, objetivos, obtusos. Homens que nos matam de rir e de fome.

Nas escolas não se deve aprender nada de inútil. Ler versos, desenhar, escrever poemas, contar histórias, especular filosofias, descobrir novas matemáticas e espaços geométricos inesperados – tudo isto, que não ajuda ao acúmulo de riquezas, deve ser banido em favor da utilidade. Saber assinar o nome e fazer as quatro operações é o que basta. Um empregado deve dominar coisas simples. Um empregador, menos ainda. Um chicote basta. Portanto, abaixo os teóricos, as especulações, a perda de tempo e dinheiro.

E aprenda a se vestir. Os que podem se vestir. A ordem do mundo é esta: vista-se para ser visto. Vista-se por dentro e por fora – logo você não verá mais diferença entre o dentro e o fora. Você é um envelope. Vazio.

Seu corpo é público e não passa de um bem de consumo. Exiba-o como mercadoria. Escolha se é com barba ou barbicha, espete ou raspe os cabelos, encha os seios com silicone, espiche a cara com botox, exiba o que não é seu – quem compra não sabe. Sua pele é uma roupa como outra qualquer, suas idéias e frases preferidas não passam de um cosmético destinado a fazer amigos e conquistar pessoas. Aliás, não leia livros que contenham mais de uma ideia. Só vai atrapalhar.

Mova-se por decisões simples. Veja o filme da moda, ouça a música de duplas românticas, faça o vestibular no qual basta preencher um formulário, escolha a profissão mais lucrativa –, estacione seu carrão no imenso pátio da universidade e suspire: quatro anos é coisa que passa rápido. Logo você estará livre para operar, na bolsa ou no bolso de alguém.

E não esqueça: como dizem as fornidas moçoilas e os esbeltos rapazes que posam na televisão e nas capas de revista, o que importa é o sucesso. O sucesso a todo preço e a todo custo – o deus que a tudo preside. Se puder, faça poses para nus frontais – artísticos, intelectuais ou morais, pouco importa. Importa é o sucesso. Aliás, não queira fazer coisas, apenas divulgue que você fez isto ou aquilo, o que você fez não importa. Não inaugure uma biblioteca, um hospital ou uma escola – mande cartas, e-mails, cartazes e anúncios de página inteira dizendo ao mundo que fez o que não fez nem fará. Importa o que sai na mídia. Se for político, não realize obras. Chame a imprensa e comunique que está decretando que se faça tal obra – é o que basta, o resto o povo esquece. Não aprenda a desenhar, a pintar, a compor – faça logo uma instalação, uma exposição, um release.

Assim, de olho no sucesso, vá em frente. E, sobretudo, não pare para pensar. Pode ser fatal.


* Roberto Gomes nasceu em Blumenau. Reside em Curitiba. Escritor, editor, tradutor e professor aposentado do Departamento de Filosofia da UFPR. É autor, entre outros, de Crítica da Razão Tupiniquim (1977), hoje em décima terceira edição, a propósito da qual Darcy Ribeiro escreveu, em Aos Trancos e Barrancos: "O Brasil volta, finalmente, a filosofar".
> Texto retirado do site Criar Edições, do autor.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

ROMANCE D’A PEDRA DO REINO

Isaac Melo


Não dá para esperar outra coisa de Ariano Suassuna, senão a excelência literária. Se a Espanha pode se regozijar com a genialidade de um Cervantes em Dom Quixote, a Itália de um Dante em A Divina Comédia, nós, brasileiros, podemos fazer o mesmo em relação a Ariano Suassana em Romance d’A Pedra do Reino. Obra que, enraizada na cultura popular brasileira e nordestina, cresce a tal ponto de tornar-se monumental e universal.

O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta foi publicado em 1971. Suassuna compõe a sua narrativa a partir dos acontecimentos que se deram entre os anos de 1836 a 1838 na Pedra do Reino. A Pedra do Reino é uma composição de duas grandes rochas, uma medindo 30 e outra 33 metros de altura, na Serra do Catolé, no município de São José do Belmonte, no Estado de Pernambuco já na fronteira com a Paraíba. Ali, em 1836, sob a liderança de João Antônio dos Santos,  havia sido fundado um reino, de caráter sebastianista, com leis e costumes próprios. Sendo que, em maio de 1838, sob o comando de João Ferreira, cunhado de João Antônio, foram sacrificadas cerca de 87 pessoas, pois, segundo ele, o rei português Dom Sebastião só ressuscitaria, trazendo prosperidade a todos, se a Pedra Bonita fosse banhada com sangue de pessoas e animais. Dom Sebastião, havia desaparecido durante a batalha de Alcácer-Quibir, em 1578.
A Pedra do Reino.
Ariano Suassuna visita a Pedra do Reino, inspiração de seu romance.

Eis uma síntese do enredo da obra por uma das próprias personagens, no caso, o Juiz Corregedor, que indaga a Dom Pedro Dinis Quaderna, personagem principal:
“Coloque o caso assim, Dom Pedro Dinis Quaderna! Suponha que você fosse o Juiz e eu o depoente e acusado. O senhor chega aqui na Cadeia e vê-se diante da história de um homem que foi degolado perto de mim. Eu sou um dos herdeiros desse homem e servir de Conselheiro a ele durante a maior parte da sua vida. No mesmo dia da morte dele, seu filho mais moço desaparece, e depois é encontrado morto. Desde então, eu passo a profetizar, todo ano, a ressurreição e a volta desse Rapaz, meu primo e sobrinho. Nas vésperas da Revolução comunista de 1935, aparece, aqui na Vila (Taperoá), uma coluna de Ciganos, chefiada por dois homens estranhos, que vêm trazendo de volta um rapaz que eles encontraram na estrada, meio esquecido das coisas, e que, segundo dizem, é o filho mais moço daquele homem, filho agora ressuscitado, como eu tinha predito. Alguém tenta matar o Rapaz. O tiro falha, e o capanga é assassinado, com outro tiro, partido do lugar em que me encontro no momento. Aí, eu volto para a cidade. A luta entre o Rapaz (Sinésio) e o irmão mais velho (Arésio) começa, e eu tomo o partido do ressuscitado: no meio de um tiroteio violento, saio com os Chefes da coluna para o acampamento de suas tropas, momento que, segundo minhas próprias palavras, “encerra a fase do Crime e inicia o da Vingança”. (2004, p.734)

O livro, belamente, se inicia assim:
“Daqui de cima, no pavimento superior, pela janela gradeada da Cadeia onde estou preso, vejo os arredores da nossa indomável Vila sertaneja. O sol treme na vista, reluzindo nas pedras mais próximas. Da terra agreste, espinhenta e pedregosa, batida pelo sol esbraseado, parece desprender-se um sopro ardente, que tanto pode ser o arquejo de gerações e gerações de Cangaceiros, de rudes Beatos e Profetas, assassinados durante anos e anos entre essas pedras selvagens, como pode ser a respiração dessa Fera estranha, a Terra – esta Onça-Parda e cujo dorso habita a Raça piolhosa dos homens. Pode ser, também, a respiração fogosa dessa outra Fera, a Divindade, Onça-Malhada que é dona da Parda, e que, há milênios, acicata nossa Raça, puxando-a para o alto, para o Reino e para o Sol.” (2004, p.31)

Uma das belas passagens da obra, o diálogo travado entre Arésio e Adalberto sobre a Justiça e a Verdade, presente no Folheto LXXIX intitulado “O Emissário do Cordão Encarnado”, às páginas 621-653.
A escritora Rachel de Queiroz, no prefácio, diz assim:
“Tenho muito medo de livro de erudito. Livro de homem que leu tudo e sabe tudo e então compõe a sua obra reunindo todas aquelas sabedorias, costuradas com fio de seda; mas a gente sente logo que aquilo vem da cabeça inventiva, não dos flancos criadores do homem; e em arte a gente não quer astúcias intelectuais, mas vida pulsando, embora sem saber como pulsa e por que pulsa. (...) Só comparo o Suassuna no Brasil, a dois sujeitos: a Vila-Lobos e a Portinari. Neles a força do artista obra o milagre da integração do material popular com o material erudito, juntando lembrança, tradição e vivência, com o toque pessoal de originalidade e improvisação. (...) Por isso tem recuo suficiente para descobrir o mistério onde os da terra naturalmente só veem o cotidiano.” (2004, p.16 e 17)
Escudo de Armas de Dom Pedro Dinis Quaderna,
12o. Conde da Pedra do Reino e 7o. Rei  do Quinto
Império e do Quinto Naipe do Sete-Estrelo do
Escorpião.

Por sua vez, num estudo da obra, ressalta Maximiano Campos:
“Este seu livro, mágico violento e belo, e o Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, são romances superiores, desses livros que transcendem ao mero enredo e fabulação e nos fazem ficar tentados a chamá-los de epopeias. (...) Ariano Suassuna não limitou o mundo à visão do Sertão nordestino, mas, através dessa visão de criador, fez do Sertão um palco gigantesco onde são representados, através de seus personagens, os dramas da condição humana. (...) Lendo o romance de Suassuna temos a impressão de estar diante de um grande mural em que o pintor usasse as palavras como se fossem as tintas vigorosas da imaginação. E estas cores vêm revestidas também de som. Nesse livro, homens, feras, a beleza e a miséria, o sonho e a realidade, o mito e a descrença, o ódio e o amor, nos envolvem e povoam a solidão da nossa leitura. E ninguém sairá impune dessa leitura porque nela encontrará a farsa do mundo a ser representada. (...) São livros como A pedra do reino que nos ajudam a decifrar essa nação continente, essa fera misteriosa. (...) A pedra do reino se assemelha com o Apocalipse, porque é, também, além de romance, uma profecia, que, no Sertão do Brasil, Quaderna tenta decifrar.” (2004, p. 745, 746, 749 e 750)
Insígnia Astrológica de Dom Pedro Dinis Quaderna, O Decifrador.
Já o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, sobre A Pedra do Reino, afirmou:
“Extraordinário romance-memorial-poema-folhetim que Ariano Suassuna acaba de explodir. Ler esse livro em atmosfera de febre, febril mesmo, com a fantasmagoria de suas desaventuras, que trazem a Idade Média para o fundo Brasil do Novecentos, suas rabelesiadas, seu dramatismo envolto em riso. Ah, escrever um livro assim deve ser uma graça, mas é preciso merecer a graça da escrita, não é qualquer vida que gera obra desse calibre.”


SUASSUNA, Ariano. Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

GRANDE SERTÃO

Adaptação do romance Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Filme de 1965, sob a direção de Geraldo e Renato Santos Pereira.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O MAR

Charles Baudelaire (1821-1867)

Porque motivo o espetáculo do mar é tão infinitamente e tão eternamente agradável?

Porque o mar oferece, a um tempo, a ideia da imensidade e a do movimento. Seis ou sete léguas representam para o homem o raio do infinito. Eis aí um infinito diminutivo. Que importa, se ele basta para sugerir a ideia do infinito total? Doze ou quatorze léguas de líquido em movimento bastam para dar a mais alta ideia de beleza que se ofereça ao homem no seu habitáculo transitório.


BAUDELAIRE, Charles. Meu coração desnudado. Tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p.107

SÁBADO NA HORA DA ESCUTA

Mário Chamie (1933-2011)


por fora
nesta hora
estou estamos na poltrona.
o sábado:
seu macio beladona
nos prende na onda
no baixo letal veneno da sombra
cômoda.

na poltrona do sossego
estou estamos no centro
das ondas longas
das ondas curtas
da língua suja
da mesma fria
NOTÍCIA
com sua asma
com seu fantasma
de sentença coletiva.

estou estamos na ilha
sob os raios de rádium
onde estando estamos
com o rádio de pilha.

seu reino avança.
indefesos
presos
estou estamos no centro.
dentro
a enguia fria da NOTÍCIA
lança a lança em onda de onde
está estando em sombra.

pois esta é a sombra.
esta, a cômoda.
este, o letal concêntrico
veneno
em volta da poltrona.

estou estamos.
no centro por dentro da ilha
sob as águas, no meio das ondas
o rádio de pilha
está onde estamos
– sombra e escudo –
quando mudos
na sombra
ouvimos o que não muda
e manda.



CHAMIE, Mário. Sábado na hora da escuta: antologia. São Paulo: Summus, 1978. p.115-116

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

ETERNO MOTIVO

J. G. de Araújo Jorge (1914-1987)


Não me envergonho nunca de falar de amor!
............................................................................

Terá vergonha a fonte em murmúrios de festa,
águas claras rolando dentro da floresta
de embalar a flor?

Terá vergonha o pássaro inquieto, sozinho,
de um dia cantar mais, (como todos cantamos...)
– e tecer com gravetos de palha o seu ninho
na altura dos ramos?

Terá vergonha a terra de acordar cheirosa
e inteirinha vibrar ao despontar do dia,
oferecendo ao sol sua boca macia
naquela rosa?

Terá vergonha o mar de acariciar a areia
e oferecer-lhe conchas ao invés de anéis?
E dizer-lhe canções, em que todo se enleia
aos seus pés?

Terá vergonha a noite, que de astros se encheu,
ao pôr o seu vestido imensamente azul
para um baile de luz,
de ostentar o presente que o tempo lhe deu.
o "pendentif" em cruz 
do Cruzeiro do Sul?
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Por que razão, portanto, – Ele, o predestinado,
que nasceu para amar com grandeza e esplendor
e trouxe um coração de poeta enamorado
há de sentir pudor?

Eu, por mim, sou feliz, porque amo e sou amado!
Nem me envergonho nunca de falar de amor!


JORGE, J.G. de Araújo. Eterno Motivo. Rio de Janeiro: Vecchi, 1954. p.19-21