quinta-feira, 20 de junho de 2019

BANDA SARAMAGO'S

Banda Saramago's: Eanes Henrique (vocal e guitarra), Eduardo Santos (bateria) e Kelvin Illitch (baixo e backing vocals).

quarta-feira, 19 de junho de 2019

IRMÃO JOSÉ DA CRUZ: esboços históricos

O fundador e sua obra 

São um tanto controvertidos os dados biográficos do sr. José Fernandes Nogueira depois chamado José Francisco da Cruz por ele mesmo, e colecionando, através de suas andanças, muitos títulos e apelidos: Missionário do Sagrado Coração de Jesus, Apóstolo dos Últimos Tempos, Missionero, Hermanito e outros.
Nasceu no município de Cristina, a 3 de setembro de 19133 (ou 1914). Segundo depoimento dele mesmo, foi batizado pelo Cônego José Augusto Leite, e crismado pelo bispo de Campanha, D. Inocêncio Engelke, no sul de Minas (Oro, 1977: 102).
Em sua infância deve ter tido alguns problemas, pois duas vezes tentou seguir a carreira sacerdotal, não conseguindo seu intento. A primeira vez, segundo ele, quis ir à França formar-se, quando tinha ainda 9 anos, através do Pe. João Paulo Dejargenet. Mas isso não se concretizou, não se sabe por quê. Aos 13 anos, ele estava “contratado” para ingressar no seminário Santo Afonso, em Aparecida, junto aos Padres Redentoristas. Mas não foi possível, principalmente por motivos econômicos, revela ele. No entanto, pode-se presumir que, desde aqueles tempos, os padres e professores já vislumbrassem em sua personalidade algum pequeno problema.
Sabe-se que casou e que teve sete filhos, sendo o mais velho Benedito Irineu Nogueira. Uma filha, que morreu em Céu Azul, chama-se Maria do Carmo Fernandes. Outro filho, Raimundo, foi seminarista em Jacarezinho, no Paraná.
Em alguns de seus depoimentos, afirma que, em 1934, recebeu uma visão celestial divina para seguir pelo mundo, com a Cruz e o Santo Evangelho.  Em outros, fala que essa visão foi em 1944. Nessa época, certamente, ele já estaria casado.
Por depoimentos de conhecidos, sabemos que o casamento do sr. Nogueira foi bastante tumultuado. Dum lado a mulher e os filhos e, de outro lado, as visões que ocupavam grande parte de sua vida.
O que é certo de tudo isso, por declarações de Nogueira, é que a maior parte de seu tempo ele o passava organizando atividades religiosas, principalmente romarias a Aparecida do Norte. Em suas longas conversas no Lago Cruzador, Rio Içá, em 1981, ele narrou, pormenorizadamente, suas peripécias. Disse ter organizado, só ele, 160 romarias a Aparecida. Algumas de caminhão e outras de trem. Datas em que esteve envolvido nisso, com certeza, são de 1953 a 1957. Uma cidade, onde organizou romarias, foi a de Noronha, Minas Gerais. As romarias chegavam a ser de cinco ou mais caminhões. E, com isso, destacando que o povo preferia fazer a romaria com ele, pois cobrava 55 cruzeiros, ao passo que o Pe. João cobrava 70 ou 75.
Quem mandou parar com a romarias foi um tal de Pe. Hélio. Isso parece ter sido uma das maiores frustrações do sr. Nogueira, e parece ter sido a ocasião para tentar outras coisas, inclusive sua peregrinação pelo mundo.
De suas romarias a Aparecida, ele possui fatos pormenorizados, com o nome de pessoas que inclusive ainda vivem. Fala, por eexemplo, de diversos padres redentoristas de Aparecida, como o Pe. Valentim Moser (encarregado das Oficinas Gráficas); do Pe. Vitor Coelho de Almeida, que o livrou duma enrascada, de certa feita, dizendo para um grupo de pessoas, que o queria agredir, que ele não tinha culpa, que era inocente, etc. Segundo Nogueira, o Pe. Vitor o mandou até Roseira, e de lá, ele pegou o treme e desapareceu do lugar. Fala também de outros sacerdotes, como Pe. Antônio Diana (Bibiano) Siqueira, que pregou diversas missões (em Pouso Alto, por exemplo).
Pelo que se pode deduzir, ele deixou a família duas vezes. A primeira em 1957 ou 58, chegando até o Paraná. Há diversos depoimentos de que, por essa data, ele estava peregrinando. Mas teve de regressar, e parece ter sido por pressão da família, que ficou sem amparo, inclusive com dívidas. Foi assim obrigado a voltar para Minas. Deve ter ficado uns 2 ou 3 anos, ainda, em Minas, encaminhando a mudança para o Paraná.
Segundo seus depoimentos, em 1951, recebeu os primeiros pontos de conhecimento; em 1958, deu início à sua missão (Oro, 1977: 102). Em outro lugar afirma que começou a pregar em 1957. Inicia a usar batina, declara ele, em 1960, e nunca mais a tira do corpo, e passa a rezar missa.
Pode-se presumir que sua segunda saída, agora definitiva, foi em 1962, quando deixa a família. Nessas alturas, a família até não fazia muita questão de que permanecesse em casa, pois ele pouco colaborava com a manutenção da mulher e filhos; ao contrário, até prejudicava. Ele comenta que, duma feita, emprestou 12 contos de réis a alguém, escondido da mulher, e que, depois, não lhe pagaram mais, daí, diversas dificuldades.
Na sua peregrinação, ele levava uma enorme cruz que diz ter trocado por duas vezes: numa igreja, em Curitiba, e numa fazenda, no Paraná.
Em suas andanças, pregava e rezava, onde era convidado, ou mesmo que não fosse. Suas pregações eram baseadas em sua formação religiosa básica: pregações dos padres, participação nas irmandades, cânticos e orações de romarias e, principalmente, as influências que sobre ele exerceram as missões, notadamente, as dos missionários redentoristas. A inspiração que as missões populares exerceram sobre ele é decisiva. Os cânticos são, em sua maioria, das missões. A cruz é o sinal deixado pelos missionários ao terminarem uma missão, e ele repete exatamente o rito: planta a cruz no último dia, às 3 horas da tarde, e manda a todos rezarem ao pé da cruz, lembrando as pregações das missões. Nas missões, faziam-se batizados e legitimações de casamentos: pois é exatamente o que o Ir. José realiza também.
É claro que tudo isso é feito por alguém que mal sabe ler e escrever, e que guarda ou guardou tudo de cor. Ele introduz, com o passar do tempo, coisas pessoais, de inspiração do momento.
O sr. José Fernandes Nogueira percorreu, em sua peregrinação, diversos estados e países. Saindo de Minas Gerais, passou em São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Pará, Amazonas e Acre. fala do Rio Grande do Sul, das amizades que fez próximo a Porto Alegre, com um militar que o recebeu, pois o bispo estava um tanto desconfiado. Fala também dos trigais e da soja que cobria vastas regiões do Estado e, inclusive, da cidade de Canoas, situada perto de Porto Alegre.
Tem viajado, além do Brasil, pelos países do Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia e Peru. Ao querer entrar no Brasil, tentou entrar pela Colômbia, mas foi impedido pelas autoridades militares, por solicitação das autoridades eclesiásticas.
Em um documento inédito que descobrimos em Benjamin Constant, escrito em forma de verso (55 versos de 7 linhas cada um), intitulado A mi Misión Apostólica y Evangélica en vuelta del mundo corriente Actas y Generales por países extrangeros. Brasil, Argentina, Uruguay, Paraguay y Peru, escrito em espanhol, pode-se ter uma ideia de por onde tem andado. Entre algumas cidades ou locais mencionados estão: Minas Gerais, “tierra en que nací”, São Paulo, Paraná, Mato Grosso, São Borja (RS), Paraguay (Província de Concepción), Serra do Cachimbo, Uruguay, Uruguaiana, Montividéu, Rosário (RS), Colonia (Uruguay), Santana do Livramento (RS), Santa Maria da Boca do Monte (RS), Encarnación, Acaraí, Argentina, Asunción, uma parada no Paraná. Depois: Bebedouro, Barretos, em direção à Brasília.
“Em Goyás visité Brasília capital federal de mi nación cumplí 51 años debajo de un árbol en la puerta de un mercado onde hice oración meditando l agracia de Dios y poder sus santas manos...” (A mi misión, s/d, verso XIII).
De Brasília: Belém-Brasília, “duro estradón”, Ceres, Apurungatu, Imperatriz, Porto Franco, Pará, Rio Cabeludo, Rio Tinga, Marabá, Gurupí, Paraguamina, Belém, Manaus, Rio Prieto, Rio Urubín, Iporangá, navio Augusto Montenegro, Villa Abonán orilla del rio Madero, Porto Viejo, “fui seguiendo Ferrovía”. “Dia 6 de setiembre de 1967, adiós ciudad de Madureira”. A seguir, Rio Cayeté, Tacuari, Pedro Mesías, Rio Canamari. “En la margen del río Canamarí hice casar dos jóvenes por tener gran precisión” (A mi misión, s/d, verso 30).
Depois: Rio Purús, Puerto Romeo, San Blas, rio Yurparí, Puerto Brasil, rio Invira, rio Taracuá. De Taracuá a Urumepéen, ciudad de Purumepé, 3 días de retiro em Rumepé, rio Yuruá. En San Juan fui a Garape Preto y San Miguel hasta el Arazá, subindo o rio Yuruá. A seguir, Buen Jardín, Monte Lisio, Tushí, Coronel Edmundo, San Luis, San Sebastián, San José, Santa Teresita, Miné Esteban, Cruzeiro Du Sul, San Cristóbal e Santa Lucía. Ainda, Rio Yapiné, Pucalpa, Santa Ana, Callán, Orilla del Yuruá, río Amoña, Río Caiany y Putuya, Peru...
Através desse documento, descobre-se seu roteiro e, inclusive, o tempo que se tem demorado em sua peregrinação. Sendo que deixou Minas em 1962, estando em 1963 no Paraná, e dizendo que fez 51 anos em Brasília, conclui-se que esteve em Brasília em 1964. Daí seguiu para o Maranhão, Pará, Amazonas, descendo provavelmente para o Acre. Diz estar em 67 na cidade ou lugarejo de Madureira, certamente ainda no Brasil. Adentrou-se daí Peru afora, pelo Rio Juruá, demorando-se sempre pelas diversas localidades. Se deixou o Peru em 1972 tentando entrar na Colômbia, e não conseguindo, conclui-se que o nosso personagem vivia realmente peregrinando e dificilmente se demorava por muito tempo num lugar só. Pode-se supor que em Iquitos mesmo tenha-se demorado um ano ou dois. Mesmo depois que tinha subido ao Içá, ele tentou ainda penetrar na Colômbia, mas foi recambiado ao Brasil, através de Benjamin Constant. Sua missão era mesmo peregrinar.
Mas o que fazia o nosso peregrino em suas andanças?
Fazia, na realidade, muitas tarefas específicas dum peregrino. Entre outras, podemos ver: fazer retiro, orar, receber a comunhão, cantar com os irmãos, fazer pregação (em quase todos os lugares), ensinar a Bíblia, consolar os irmãos, rezar pelos doentes, abençoar as pessoas, fazer casamentos, jejuar e fazer ainda outras obras devotas.
Na maioria das vezes, ele se hospedava em casa de pessoas importantes do lugar (comandante, prefeito, senhores de terras, donos de castanhais ou seringais) e, em seus versos, lembra nomes e agradece aos que lhe deram ocasião de pregar o Evangelho. São inúmeros os nomes de “benfeitores” que cita em seus versos, alguns com muito carinho.
Se o irmão diz ter fundado a Irmandade Cruzada Católica Apostólica e Evangélica no dia 23 de maio de 1963, certamente ela foi consolidada e firmada apenas no Peru, onde se formaram comunidades e se construíram capelinhas com cruzes. Num documento da IV Assembleia Episcopal Regional da Selva do Peru, realizada em Yurimaguas, em abril de 78, foi apresentado um relatório do Fdo. Florencio Pascual Alegre González sobre a Irmandade da Cruz. Não se pode saber, pelo documento, quando o Ir. José teria começado a sua pregação no Peru. Mas pode-se saber que entrou no Peru pelo rio Bru, descendo pelo rio Tamaya, Masisca e Pucallpo. Passou o Huánuco y San Martin, regressando a Ucayali, navegando por ele até o Amazonas. Quando esteve em Pucallpo já tinha seguidores, que iam adiante dele espalhando os seus poderes, entre eles, os de curar os enfermos, alimentar multidões, distribuir muita comida, fazer milagres, pregar de modo maravilhoso, distribuir esmolas, etc. Assim, as multidões esperavam horas e horas na barranca do rio a chegada do milagroso irmão.
Das correspondências que possuímos, temos cartas datadas de Iquitos, Peru (25-8-71), Caserío Nueva America (27-4-71), Caserío San Regis (22-5-71). Com data anterior não se encontrou nenhuma correspondência; a mais antiga era de 27-4-71. Quanto ao Brasil, há um atestado de batismo de 7-6-72, feito em Benjamin Constant.
Pois é esse o personagem que nos primeiros meses de 1972 faz sua entrada no Brasil, deixando o Peru na divisa com a Colômbia (cidade de Letícia) e fazendo a sua primeira parada no Marco (Tabatinga), Brasil.


GUARESCHI, Pedrinho A.. A Cruz e o Poder: a Irmandade da Santa Cruz no Alto Solimões. Petrópolis: Vozes, 1985. p.49-54

terça-feira, 18 de junho de 2019

UMA PERGUNTA AOS UNIVERSITÁRIOS: PARA QUÊ E A QUEM SERVEM AS FUNDAÇÕES DE CULTURA NO ACRE?

João Veras

Rio Branco sedia duas fundações de Cultura. A estadual Elias Mansour e a municipal Garibaldi Brasil. Ambas existem para o fomento da cultura acreana – é o que justifica, grosso modo, suas existências. Está escrito em seus estatutos, nas suas leis de constituição. É o que justifica o orçamento que tem, a sua estrutura patrimonial. É o que justifica o seu quadro de pessoal, suas tantas funções gratificadas. A existência e seus presidentes e suas diretorias!
No entanto, nenhuma delas tem política pública de fomento para a literatura acreana. Nenhuma delas tem política pública de fomento para o cinema. Nenhuma delas tem política pública de fomento para a música. Nenhuma delas tem política pública de fomento para o teatro. Nenhuma delas tem política pública de fomento para a dança. Nenhuma delas tem política pública de fomento para as artes plásticas. Nenhuma delas tem política pública de fomento para a fotografia. Nenhuma delas tem política pública voltado para a proteção dos patrimônios materiais e imateriais no campo das artes, da história, da arquitetura. Nenhuma delas tem política pública de fomento para as chamadas manifestações da cultura popular locais. Nenhuma delas tem política pública de instituição e manutenção de espaços culturais. Nenhuma delas tem uma política pública de formação para o campo das artes – exceção à Estadual que mantém a escola de música do Tucumã e a Usina capengando com formação técnica profissional que é uma política do governo federal. Quanto ao teatro, ao cinema, à fotografia, às artes plásticas, à dança, à literatura... nada.
O que ambas mantêm, com orgulho, são seus sistemas de cultura, nos quais as mesmas estão integradas, com os seus respectivos conselhos de cultura e também as duas leis de fomento, que aprendemos a chamar de leis de incentivo à cultura (sic!). O sistema se completa com as chamadas conferências nas quais o movimento dá lá suas opiniões, aprova os planos de cultura que de nada servem se as fundações as engavetam. São os respeitáveis espaços civis de escutas para governos moucos!
As leis se tornaram as únicas formas “democráticas” pelas quais as duas fundações aplicam as suas políticas de cultura. Isto é uma verdade. A estadual, salvo engano, não lança edital há quatro anos. O último não conta, veio de uma minguada verba federal. A municipal mantém seus editais com migalhas (até compreendo pelo orçamento municipal) a serem divididas por toda uma população de artistas e pretensos artistas, o que ao final consagra uma grande e importante minoria e com valores mais migalhados ainda. É uma espécie de joga pra cima em que só quem pega é quem preencher os quinhentos mil critérios que estão nos editais e também fora deles (convenhamos).
Os conselhos... sinceramente, o estadual de nada serve. Pelo menos para o movimento cultural e para a política de cultura, esta que não existe – e aquele ainda. Conheço-o muito bem. Não por culpa dos seus conselheiros. Sei muito bem da arapuca que é dele participar. A imprestabilidade dele se explica por uma questão de origem. Foi criado pelo Governo Jorge Viana justamente para não funcionar em favor da sociedade. Onde está ele diante das fundações nesse quadro de completa ausência de políticas de cultura? Alguém viu? O conselho municipal ninguém entende (como diz o Dalmir Ferreira: é uma mula de mil cabeças - ou sem cabeça). Por quase ninguém entendê-lo, não funciona e por não funcionar, a fundação – e não seus membros conselheiros - e quem dirige ou o contrário dessa ordem de ação. Vá lá, serve para alimentar um dos critérios na concorrência dos editais: participar das reuniões... E por último, as conferências. No plano estadual tem mil anos que não acontece conferência. Na municipal, as tais só pra discutir – como quem divide a pouca carniça – o parco valor – já decidido pela prefeitura – dos editais.
Esse sistema, nesse passo, com todo o seu arsenal “democrático” (fundações, conselhos, leis, conferências...) não garante a participação social nas escolhas dos dirigentes, na definição dos orçamentos e seus planos anuais, o que envolve valor maior para o fomento, mesmo pelas leis, na definição e execução das políticas públicas... O quadro é caótico (mas satisfatório para os governos todos que não valorizam a cultura local) esse em que inexiste política pública de cultura no Acre e no município de Rio Branco. Se não servem as fundações para a satisfação de seus objetivos, pergunto para que e a quem serve mesmo? Alguém poderia me responder?