Mostrando postagens com marcador VÁSSIA SILVEIRA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador VÁSSIA SILVEIRA. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 13 de maio de 2014

QUEM TEM MEDO DE LEILA JALUL? (final)

Vássia Silveira
Exercício no 3 (Leila Jalul)
(Para ler a primeira parte da entrevista clique aqui.)

E a literatura enquanto escrita, como e quando ela entrou na sua vida?

No livro Coisas de Mulher eu contei sobre viver enlatada na burocracia e entalada ao lado do Marmo. Por toda uma vida escrevi despachos, pareceres, ofícios e memorandos. Quando separei do Marmo e quebrei a perna em oito lugares, fiquei de cama e aproveitei para chamar a vida à tona.

Foi quando comecei a ensaiar as primeiras letras queridas. Tudo muito simples e eivado de contradições.  Decidi dar uma voltinha na infância e foi ai que começou a minha vida de artista. Um dia, Elson (Martins), Toinho Alves e Altino Machado foram comer meu rabo no tucupi e foi quando falei que tinha uns textos guardados. Altino já tinha o blog. Eu nada sabia de computador. De Olivette e Remington, sabia tudo.

Para mandar o primeiro texto foi uma novela. Fui xingada e execrada. Altino me chamava de burra! Depois o Elson também gostou. Outros gostaram. E foi assim. Foi assim que nasceu Suindara.

Isso foi em que ano, Leila?

A realidade dos fatos é uma: Marmo sofreu até conseguir separar de mim. Hoje entendo isso. Não foi nada fácil. O ano de ensaio da separação foi 1993. O da separação propriamente dita foi 1995, começo de 95. Neste mesmo ano lancei Coisas de Mulher. Eu já sentia necessidade de escrever. Morri muitas vezes para dar vida ao Marmo. Ele era pesadão. E negro! É difícil ser negro, é difícil ser pobre. Ser pobre e negro!

Ouvi coisas aí no Acre que não me permito lembrar. Muitos amigos meus não entendiam o meu vigor casado com o peso do Antonio. Mas se quiser ser honesta, decente e falar de amor de forma clara e limpa, digo: Marmo foi o único amor que tive na vida. Pena que ele não sabia disso. Senão... (teria corrido atrás de outro rabo de saia bem antes!)

Voltamos pra estaca zero? Ao início?

Não, acho que voltamos aos amores... Até que ponto você acredita que o amor (e mais ainda sua ausência) é alimento para a literatura?

Você conhece algum poeta alegre e saltitante? Se a dor ensina a gemer...

Sou chegada aos parnasianos. Aos românticos. Aos viscerais. Gosto de Augusto dos Anjos. Agora mesmo vou te mostrar a cobra e o pau de um dos meus poemas baseados nos simbolistas. Aguarde. É cheio de aliterações e de dor.

Masocação
ah! como eu adoro uma calamidade pública…
como eu escolho emergir pro fundo
e brincar na lama
e amamentar a dor
ah! como eu adoro!
banhar-me nas minhas próprias lavas,
chicotear-me, atar-me com minhas próprias tripas…
ah! como eu adoro!
invocar espíritos cancerosos para chorar
e é tão fácil!
vou nas gavetas e reavivo o tempo da tuberculose
arranco o Cruz e Souza das cavernas
é como se vivesse nas ruelas de N. Sra. do Desterro, hoje Florianópolis.
ah! como eu adoro!
fazer aliteração com os sons da minha hemoptise
de vermelho cardeal,
de emitir vagidos,
ah! como eu adoro!
fazer bandeiras com tiras da minha pele
que eu mesma retiro e seco ao sol,
com o sal por mim retido
esfrangalhar a alma, fritá-la em alho e óleo
ah! como eu adoro!
me enterrar torrando na quentura do fogo
que acendi
que me cozinha viva
ah! como eu adoro!
deixar cair uma mosca em minha sopa!
e ser a mosca no meu quarto
azumbizar!

Você tinha falado antes que morreu muitas vezes para dar vida ao Marmo. Como era esse "morrer"?

Depois de nossa ida para São Paulo ele foi trabalhar na Globo. Deixei de ser a Leila para ser uma brega do Acre casada com o Marmo globeleza. Para arrumar a vida a dois perdi muito da espontaneidade. E da vergonha, também! A Globo, o ambiente da Globo, numa cidade do interior paulista,  mudou a personalidade do rapaz. Eu vi e senti as coisas assim. Ele deve ter a versão dele.

Como vocês se conheceram?

Conheci o Marmo em 69. Ele foi para o Acre junto com o Sílvio Martinello, cumprir um expurgo. Ambos eram seminaristas (frades) e escreveram um artigo com uma imagem de Jesus atrás das grades. O título do artigo era O Procurado. Essa é a história que sei. A que gravei na mente.

No Acre, continuaram freis e faziam o programa da Ave Maria na Rádio Difusora, acho. Eu, na época, fazia parte de um grupo de jovens sob o comando do Clodovis Boff, primo do Leonardo (Boff). As reuniões dos jovens aconteciam na residência dos padres, no segundo piso do Colégio Meta e numa saleta de uma igrejinha que derrubaram. Havia muito mais que isso e muitas outras pessoas conhecidas, mas preciso resumir.

Foi através desse grupo de jovens que conheci o meu primeiro marido, um alemão de boa índole. Com ele namorei e casei. Ele trabalhava como monitor do Senai e também morava na casa dos padres.

De 69 até 77, 78, convivi com o Marmo como “maninhos”! Ele ficava no Acre, ficava em São Paulo... Nos correspondíamos, enfim.

Em 77, 78, não lembro ao certo, já separada, Marmo foi à minha casa e... rolou! Ele já não era mais frei. Era homem. Só homem!

Ah, então você teve um casamento anterior?

Sim, casei com o alemão que dava aulas de marcenaria na oficina dos padres. Um homem bom. Casei de papel passado. Vivi apenas quatro anos com ele. Viramos amigos. Também sou "amiguinha" do Marmo. Com reservas, mas sou.

E como era o nome desse pastor alemão?

Altir Bretz. É o pai do Eulen. Até pouco tempo atrás eu o via. Ele sempre visitava o filho na Bahia.

Como é ser amiga, com reservas, do grande amor?

Por ter perdoado a falta de lealdade. O fato do seu homem arranjar e desejar uma nova parceira, é bastante comum. E não é caso de vida ou morte. Mas que avise a idiota que lhe queria bem. Foi esse o grande pecado do Marmo: deslealdade. Ele viveu vida dupla por cinco anos.

Não posso falar de fidelidade. Isso é outro departamento! Bastava que tivesse sido leal. Como na música da Nora Ney, eu sairia pela porta por onde entrei. Mas uma coisa é certa: se Marmo me fez mal, também devo ter feito muito mal a ele.

O importante é ser passado. É ter passado. É estar aliviada.

Leila, quando eu voltei para o Acre, em 1999, você parecia estar vivendo um autoexílio. Era isso mesmo?

Sim. E nele continuo. As decepções me fizeram arredia. Ganhei de presente uma síndrome do pânico e minha vida desandou.

Agora sei que ainda tenho o pânico, mas decidi que ele não me tem. Desmamei do Rivotril e dispensei os psicólogos e psiquiatras. De l993 a 2012... Chega, não é?

Minha terapia é escrever. Como disse alguém aí do Acre, escrever é distribuir abraços. No meu caso, escrever é tirar espinhos do peito. Tiro do meu e enfio no dos outros.

A palavra, então, ocupa papel importante na sua vida...

A palavra, a latinha e o cigarro. Ainda não tive vergonha para abandonar o vício. Apenas reduzi. Também reduzi as latinhas. As palavras podem correr frouxas! Não têm efeitos colaterais.

Como é seu processo de criação?

Não tenho processo. Tenho estalidos. Às vezes lembro de uma música, ou de uma pessoa, ou de um caso e anoto.

Sou uma pessoa descuidada com a escrita. Preciso cuidar das vírgulas. Preciso não cansar o leitor. Sei que meus livros (já estou preparando o sétimo) jamais despertarão o interesse dos “grandes” editores. Nem penso em venda. Estou sob exame de uma editora que tem nome de gigante. E que vai ser gigante. Vamos ver o que acontecerá.

Quando decidi sistematizar o que escrevo e colocar em livros, acredite, foi por puro deleite. Talvez queira que meus netos saibam quem foi a avó deles.

Acho que é isso.  Estou pensando em dar uma parada em publicar nos sites e blogs. Tenho algumas ideias para me aventurar num romance. Já tenho até o título: A Cornuda do São Francisco. Bem sugestivo, não? É que eu morava no Bairro São Francisco.

O que é um bom conto para você?
Leila em sua primeira comunhão,
na Igreja São Sebastião,
em 20/04/1956 (arquivo pessoal)

É o que os outros escrevem!

Gosto dos contos que deixam coisas em suspenso. Mas tenho pecado com a obviedade. Gosto de contar coisas que aconteceram. Daí o pecado: as coisas ficam com começo, meio e fim... Se eu soubesse, escreveria contos sem final. O leitor que decidisse. Tem um autor que não lembro agora que não finaliza nada. É como um “cointo" interrompido.

Como você vê a literatura produzida no Acre?

Não tenho lido nada daí. Li o primeiro livro do (Sílvio) Martinello e gostei muito. Não li os outros dois por falta de uma visão decente. Gosto do Marcos Vinicius. É um historiador, eu sei. Não li o Moisés Diniz. Gostaria mesmo de ler um livro escrito pelo Toinho Alves e outro pelo Elson. Talvez fosse bem genuína. Bem acreana.
(Recebo outro e-mail de Leila: Não respondi bem essa pergunta. Acho que feri o Miguel Ferrante, o José Potiguara, a Florentina e outros. Outro dia, lendo o Terras Caídas, vi em alguns textos meus o embalo dos dele - do Potiguara. Posso dizer uma coisa? Prefiro ler coisas mais universais.)

O que faz um bom escritor?

Em primeiro lugar ler, ler muito! Depois, não se achar um bom escritor. Sempre querer melhorar. E essa melhora só acontece se ler muito, escrever muito e sempre achar que não é gênio. Que para ser ruim ainda tem que melhorar muito.

Há autores que dizem escrever para si mesmo. E você, para quem escreve?

Bem, eu continuo achando que escrevo para que meus netos saibam quem foi a avó deles. Escrever para o site do Lima, no entanto, traz um bom retorno para os meus ouvidos. As pessoas dizem gostar. E eu acredito.  Em primeiro lugar, penso que quero deixar algo para os meus netos. Isso que dizer que faço testamento e não literatura. É certo?

Não sei, mas isso me faz pensar: você acredita que a literatura pode ser espelho do que chamamos de “realidade”? Quer dizer, é realmente a Leila Jalul quem fala em seus textos?

É, sou eu mesma. Às vezes pareço estar recebendo procuração de alguém que já se foi... Isso é brincadeira. O que sai no papel sai de mim. Dizendo melhor, o que sai na tela, é fruto da minha realidade.

Alguns textos seus, como o Rosa dos Ventos e o Oleiro Galanteador, ambos de Minhas Vidas Alheias, parecem endossar a ideia de Sartre de que o inferno são os outros...

Parece sim, só que a gente presencia e até vive o inferno dos outros. Eu adoraria ser uma Maristela (personagem de Rosa dos Ventos), acredita nisso? Maristela reagiu. Adoro mulheres que reagem. O caso é verídico e tive que me contorcer inteira para contá-lo. Os personagens são vivos, ainda. Acho que são...

O Oleiro, idem, ele reagiu às imposições da professora louca. O inferno do João José também foi presenciado por mim. O inferno dele foi o meu. Senti na pele o que foi um garoto simples ser execrado publicamente por uma pessoa que não conhecia a realidade em que ele nasceu e viveu. Assumo as dores alheias, ao que parece.

Nesses casos, os personagens tomaram conhecimento dos textos?

Não. Camuflei o suficiente para despistar os acontecidos. Enfeitei o maracá. Deixei morto quem estava vivo e dei vida a quem estava morto. Costumo agir assim. Como também costumo inserir fatos que nunca aconteceram. Ou casar acontecimentos. Tenho um conto que envolve três acontecidos. É a famosa “casadinha” ou o econômico “três em um”. (risos)

Esse camuflar cabe na Luzinete ou não? Fale um pouco dessa personagem...

Não. A Luzinete é tudo verdade. Só que a Luzinete são muitas. E todas elas sabem o que escrevo. Exceto uma: a verdadeira. Mas há poucos fatos sobre ela. A maioria é de Lúcia, Luziene, Lucila e Patrícia. Mas acho bom não revelar o que é de quem.

Tenho uma admiração enorme pelas meninas. A baianada é muito boa de prosa e faz coisas muito engraçadas. São meninas espirituosas até no sofrer.

Outro dia fiquei embaralhada e comecei a confundir as peruas. Contei para a Patrícia sobre um texto que escrevi contando que Luzinete caiu dentro de uma sepultura e até pisou na alça do caixão. Não havia sido a Luzinete e sim, a própria Patrícia! Ainda hoje, lendo a boneca que o André está preparando, percebi que faço confusão entre as protagonistas.

Estive com muita vontade de acabar com a Luzinete. Criar um acidente fatal e fazê-la desaparecer da minha vida. Mas desisti de matá-la. Como crônica, para quando falta assunto, ela é perfeita.

Em que situação você chegou a pensar em matá-la?

Quando começou a minha confusão mental, pensei num acidente de carro. Vi que seria mórbido demais. Pensei numa despedida por mudança de cidade, bem mais tranquilo. Mas acontece que as Luzinetes principais que são a Patrícia e a Luziene estão todos os dias aqui em casa e desde que aqui cheguei.  Já lá se vão quase cinco anos. É na minha cozinha que acontecem as aulas de culinária e onde se joga conversa fora. Patrícia toma conta de mim como se eu fosse a mãe dela. Nos meus dias de desespero ela chora junto, quando fiquei hospitalizada ela esteve junta.

O livro de Luzinete, a bem da verdade, ficou como o nascer e o crescer de uma amizade que começou de forma torta.

Patrícia não sabia ler uma letra. Eu ficava com medo de tomar qualquer medicamento que ela me entregava. De conversa em conversa, incentivei-a a estudar e hoje, para minha alegria, ela está no que corresponde à antiga quarta série do ensino fundamental. Sua vida modificou completamente. E a da família, também. Ela batia muito nas crianças (4) e, de conversa em conversa, não levanta mais a mão para bater. O marido tem vitiligo. Expliquei para ela sobre a doença e hoje, graças a ela, não existe mais a vergonha que ele tinha de fazer sexo sem estar vestido dos pés à cabeça.

Há uma troca, entende? Não dá para pensar em fazê-la deixar de existir. Meu grande pecado foi juntar um monte de Luzinete num livro só. Ainda assim, consegui (os textos começaram com um propósito e o livro construiu outro.)

Você continua pintando?

Que nada! Furaram meus óios! Fiz uma cirurgia que não deu certo. Todo o humor vítreo do meu olho vazou e perdi um tanto de visão. Estou aguardando um momento para operar a outra vista (o estepe). Preciso de uma clínica e de um médico de alta especialização.

Mas minha pintura era medíocre demais, não me faz falta. Escrevo um pouco melhor do que pinto. Meu forte, no entanto, é o fogão!  E minha missão agora é acabar com a formatação do Luzinete e entrar na correção dos novos textos para o novo livro. Também de contos e mais aprimorado.

O que você anda cozinhando no seu fogão?

Comida acreana: feijão com maxixe, couve, quiabo, jerimum e jabá e rabada no tucupi. Também faço uns vatapás e outras comidinhas baianas. E comida síria, minha especialidade maior.

Além do Luzinete você está organizando outro livro? Para quando?

Sim. André estará aqui em casa até o dia 10 de julho para tocarmos o novo empreendimento. Este, ainda sem título, será prefaciado por Henrique Silvestre.

São trinta e poucos contos. Selecionaremos uns 25 ou mais um pouco. É que não parei de produzir.

Durante a estadia dele aqui arrumaremos o Minhas Vidas Alheias que ficou com uns defeitos na formatação. Logo após revisaremos os novos escritos. Em minha opinião, alguns textos são bem melhores do que os que se encontram no Minhas Vidas. Afinal, as mães acham seus filhos bonitos...

Na fé em Deus, este ano, parirei Luzinete e o outro.

(Antes de enviar outra pergunta, recebo de Leila uma nova mensagem: Parece produção em massa, não é? Acontece que tenho motivos de ter pressa. Sei lá até quando me será permitido produzir!)

Como é sua parceria com o André?

Nem sei explicar direito. É uma relação de amor e ódio. De concreto, ele é meu revisor e meu crítico. E cuida do visual do produto final. Escolhe capas, etc e tal.

Nosso momento mais conflituoso é na hora da escolha do nome do livro: É guerra!

O que eu queria, de verdade, era casar com ele. Mas... Ele já é casado.

Você disse, no começo, que o Acre foi seu lar e seu cárcere. E hoje, o que é o Acre pra você?

Sim, o Acre foi meu lar e meu cárcere. Aí nasci. Nasci ao lado do Instituto São José, quando ele nem existia. Bem na entradinha do bairro das meretrizes sem luxo.

Enquanto vovô esteve vivo, tudo ia de vento em “polpa”. Era um lugar, meio que mato, meio que centro da cidade. Cobras, macacos, lagartos, aranhas venenosas, formigas tucandeiras e outros animais sem grande significado de peçonha adoravam perturbar meu sono. E o calor debaixo do mosquiteiro de filó, hein? Tudo mórbido demais! O clima do Acre é mórbido.

Do lado bom, a mesa farta, a vida em família, os teatrinhos e as danças domingueiras para agradar as vistas do velho Ibrahim e da velha Otília. Depois tinha a loja cheia, pequena no tamanho e grande para os meus olhos. Tinha do charque e do querosene à renda francesa e aos sapatos de luxo da época. A vitrine de perfumes da Coty e as caixinhas musicais onde pequenas bailarinas saracoteavam ao som do “Il lago di Como” e “Pour Elise”. E tinha o principal, o elemento humano: os fregueses.

Foi ali, naquele ambiente, que conheci o Mestre Irineu Serra, o filho de escravos Teodorico Francisco do Sacramento, a negra Eugênia e outros pretos velhos de grande valia e bondade. Também, ali, conheci o velho Montenegro, que ainda tem muitos parentes circulando “pelaí”.

Morreu vovô, morreram os seringais, morreu a infância e começou a hora de botar meu bloco na rua. Ao trabalho, pois!

Tenho vontade de contar detalhes. Isso daria um texto de muitas laudas. Contar do meu Acre, do que foi ter sido brasileira por opção daria direito a ser demitida pelo editor chefe do meu jornal. E por justa causa! A prolixidade não é mais meu forte. É que o tempo “ruge”. Poderia escrever um livro, mas, em respeito aos que morreram e à cadeia hereditária que formaram e ainda circula por aí, melhor deixar de lado.

E foi na fase adulta que o Acre virou prisão. Meu desejo era estudar e alçar voo. Voos longos, distante de empregos públicos, de preferência. Embora deva tudo ao Acre e saber que o Acre não me deve nada, essa é pior parte da história de qualquer um que viva nessa dependência. Mamar nas tetas da grande vaca, como pensam alguns (muitos), não alimenta. Ao contrário, adoece.

Um ilustre nome da área trabalhista, depois de ler minha monografia, perguntou-me, em particular, o que estava fazendo no Acre. Dei calado por resposta. Mesmo insatisfeita, sempre soube dos meus vínculos e das razões de estar onde estive e dos porquês de ter debandado. Tudo tem sua hora. Hoje, pode parecer besteira, prefiro crer que minha estrada não foi traçada só por mim.

O mundo diminuiu de tamanho, você sabe disso. As distâncias encurtaram. Estar na Europa, nos Estados Unidos ou nos Emirados Árabes deixou de ser viagem e virou deslocamento. Tudo é “bem ali”!  E “baratim, baratim”! Nem mais desperta tesão. Pelo menos em mim, não!  Basta uma ou duas vezes, no máximo! Já fartei, pois!

O Acre de hoje, para mim, é o único lugar que está longe. Muuuito longe! Embora digam que “longe é um lugar que não existe”.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

QUEM TEM MEDO DE LEILA JALUL?

Vássia Silveira


A ideia veio em uma sexta-feira de friagem, em Rio Branco. Eu havia acabado de receber um e-mail de Leila avisando que Luzinete tinha virado livro. Daí ao convite para a entrevista e a resposta positiva da autora, foi um pulo. Mas como entrevistá-la à distância – sem correr o risco de perder sua intensidade ou espontaneidade?

Encontrei a resposta no conta-gotas do remédio à minha frente: era preciso ir devagar, sentir aos poucos as palavras e os silêncios dessa escritora acreana que, aos 64 anos e do alto de seu apartamento em uma cidade baiana, nos brinda com textos cada vez mais inteligentes e ácidos.

Propus-lhe, então, enviar apenas uma pergunta: Quem é Leila Jalul? E foi a partir da resposta dada que eu e Leila fomos construindo, no ciberespaço, a prosa que resultou nesta entrevista.  Uma experiência iniciada no dia 8 de junho e encerrada, quase um mês depois, com um saldo de 69 e-mails, oitenta cigarros e alguns goles de cerveja.
Leila Jalul, escritora, pintora e inquieta (Foto: arquivo pessoal)

Quem é Leila Jalul?

Esta eu respondo por música: “Sou como um resto de bebida/ Que alguém jogou fora/E agora, farto de mim, me esqueceu/ Eu fui mais uma taça desprezada/ Quis ser tudo e não fui nada/Ninguém é mais triste do que eu”.

Isso me fez pensar em outra composição cantada por Nora Rey: “Se o caminho da rua ainda é a porta/ Se você não me suporta/Eu sei sair por onde entrei”. Nos dois casos, Leila, o que ou quem é esse outro que despreza?

No meu caso, sou eu mesma. Vou te contar uma do Marmo (Antonio Marmo, ex-marido de Leila): Ele estava procurando emprego e bateu na redação de um jornaleco, pior do que esses daí, e foi direto para a sala de entrevista. Entrou uma moça, que se apresentou como psicóloga, com uma página em branco e fez a seguinte pergunta, com recomendação para ser respondida em apenas vinte linhas: Quem sou eu?
Marmo, prepotente como ele só, tasca a resposta, mais ou menos assim: “Você, segundo me foi comunicado, é uma psicóloga do setor de Recursos Humanos e está aqui para entrevistar os que aqui estamos em busca de uma vaga de jornalista. Sua pergunta me deixou perplexo e digo por quê: Como poderia, em apenas cinco minutos de convivência, dizer quem é você? Do que vejo e sinto, você é uma pessoa extremamente séria e disposta a cumprir seu papel de selecionadora dos candidatos aqui presentes. Fisicamente, com todo o respeito, você é uma mulher bonita e bastante simpática...”
E foi por aí... Saiu da sala e desistiu do emprego.

Você teria feito diferente?

Um pouco pior, talvez!

Já que você tocou no nome do Marmo, como foram ou são os amores de Leila?

Você quer dizer dissabores? Os amores não foram. De bom, de ótimo, há um bem querer enorme pelos netos, Hector e Catarina. Tomara que vingue! Tomara que cresça!
(Logo em seguida recebo uma mensagem de Leila: “Ei, pareço amarga, não? Mas é verdade. E em outro e-mail: “Reformulo: só se tem um grande amor. Quando acabou, acabou. Não há mais que falar de amor”)
Por falar em crescer: eu passei parte da infância frequentando sua casa e a imagem que guardei é a de que era um ambiente criativo, revolucionário, inquieto. Era isso mesmo?
Os tempos eram inquietos. Eu tinha hormônios selvagens. Minha casa era o reflexo disso, do tempo e dos hormônios.

Fale um pouco dessa época...

Havia um acre perdido dentro de um país fudido. Um acre sendo vendido aos pedaços para os "paulistas" – como eram tratados os sulistas, de forma generalizada – e uma trinca de jornalistas dispostos a ganhar uma guerra com um estilingue chamado Varadouro. Um estilingue possante, diga-se. E que cumpriu seu papel. Não fiz parte direta do Varadouro, mas fui, em algumas vezes, a braçal que ajudava na encadernação e levava uns lanchinhos para os “cobras grandes”.
Havia medo, principalmente. Depois havia uma universidade em gestação e muitos brutos no comando. E mais medo. Muito medo. Mas havia, também, uns meninos enjoados e valentões que pensavam grande (e pequeno, também).
Junte-se tudo isso num caldeirão e pense nas borbulhas salpicando água quente para todos os lados. E pense que o fogão, na maioria das vezes, era o lá de casa (você, mesmo criança, entendia tudo. A partir das preocupações do seu pai, entendia e bem!).

Quem eram esses meninos enjoados e valentões?

A começar pelos “oficiais”, Binho e Marina (Marina Silva, ex-senadora e candidata à presidência do Brasil). Havia o Toinho Alves, o chefe dos Libelúdicos. Não vou lembrar o nome de todos, mas o Toinho é bem representativo. O bastante, eu diria!
Vou te contar uma do Toinho: Quando ele era pequeno, numa noite de Natal, ganhou uma roupa de soldado romano. No outro dia, doido para mostrar o presente, vestiu a roupa e foi fazer inveja aos colegas de rua. Quase morreu de raiva! Os meninos da rua estavam todos vestidos de caubóis, com revólveres de espoleta e dizendo: “Mãos ao alto, não se movam!” Tudo no estilo Roy Rogers (Ator estadunidense de faroeste)!
Mas hoje, reflito que aquela roupa de soldado romano, com a reluzente espada e capacete dourado, foi muito importante para a formação do Toinho. Ele jamais atiraria com balas.

Olhando hoje para o passado, no que resultou aquele caldeirão de água quente?

No que deveria resultar: os verdadeiros combatentes, para usar uma palavra da época, continuam coerentes. E pobres! Outros venderam a alma.
Enquanto movimento, o melhor resultado chegou com o reconhecimento de que a floresta é importante. O mundo conheceu a luta do Chico; os "paulistas" aposentaram os chicotes e os troncos.
Na universidade mudaram os esquemas do CCC e do SNI, apareceram novas lideranças e, por um período, ficou parecida com uma Instituição de Ensino Superior de verdade.
Honestamente, minha análise é tão xucra, que me envergonha. Muitas coisas mudaram, isso é certo. Muitas coisas, no entanto, devem ter piorado. O estado, ao que parece, está à mercê dos grupos religiosos...
Sou bastante livre para dizer o que penso, até por não ter religião. Se não bati continência para os milicos, por que bateria para pastores? Acho que o inferno está cheio de milicos danosos, políticos canastrões e de falsos pastores. E de analistas xucros! (risos)
O Acre (e um tanto do Brasil) não sabe o que deve ser um estado laico. Arrisco dizer que o Brasil está equivocado em questão de fé e de política.

Falando em religião, a Marina Silva, que você citou com uma das pessoas que compunha o grupo de jovens enjoados e valentões, hoje faz parte da Igreja Evangélica. Qual sua leitura a respeito?

Veja, Vássia, eu não tenho nada contra religiões. Tenho contra espertalhões, principalmente das igrejinhas e denominações que proliferam nos fundos de quintais e de vinculações e vertentes duvidosas. Tenho tudo contra os exploradores de pessoas ingênuas.
Religião, perfume, roupas, músicas, escritores, maridos, maridas, são escolhas pessoais. Fiquei realmente espantada quando soube que a Marina havia se tornado evangélica. Talvez por deformação de entendimento de minha parte. Fiquei igualmente pasma quando soube que a Jane Villas Boas também havia se convertido. Demorou um tempo para que o meu tico e o meu teco entendessem as razões.
Nesse mesmo espanto, quase estupor, acompanhei a rendição da Baby Consuelo. A louca encontrou Jesus, não é espantoso?
Só que, com o passar do tempo, a conversão de Marina me soou diferente. Todos nós sabemos que ela é sobrevivente dos metais pesados e das cacetadas de malárias que contraiu na sua vida seringueira. E que a ciência aceita a fé como instrumento de cura. Então é isso aí: por questão de foro íntimo, por necessidade, Marina encontrou Jesus e fez com ele um pacto. E está aí, para quem quiser ver.
A prova dos nove, tanto faz ser Marina ou Dilma Rousseff, é não confundir Estado com opções pessoais. Droga, aborto, casamento gay e outras tantas questões não devem e nem podem ser resolvidas à luz da fé pessoal de quem quer que seja. A droga é. O aborto é.

Você é acreana de onde? Fale um pouco de sua família, sua infância.

Sou acreana de Rio Branco. Filha de Zizinha (Azize) e de Manoelzinho Araújo, dois perdidos numa noite suja. (Referência à peça de Plínio Marcos, encenada em 1966)
Vovô Ibrahim era o manda-chuva e vó Otília uma megera adorável. Fui (in) feliz na medida justa. O acre foi meu lar e meu cárcere.
O bonito e o feio, o certo e o errado, enquanto lição, eu aprendi onde nasci e com quem me criou. E ai de quem achar que não foi!

Retrato a carvão de Leila,
feito por Jorge Rivasplata
A referência à peça de Plínio Marcos para retratar seus pais tem algum fundo de verdade? Ou é uma ficção de Leila Jalul?

Não ao pé da letra! Mas tudo a ver. Adoro o Plínio Marcos!
Mamãe era de Umbanda e papai de Quimbanda. As bandas não batiam. Os dois eram filhos de família e se uniram em família. Mas continuaram perdidos numa vida suja.
É uma ficção. Quase! Se houve alguma coisa boa, com certeza, esconderam de mim. Papai era muito sujo! (risos) E muito gente!

E o que isso representou para sua infância? Como era a vida em família, os irmãos, seus medos e sonhos?

Papai era alcoólatra de renomada. Mamãe era triste. Também de renomada.
Papai era jogador e “quengueiro” por vocação... Mamãe era escrava do pai dela.
Não lembro de quase nada do núcleo. Vovô era o grande ditador: ditava normas e cagava regras.
Ao mesmo tempo em que essa parafernália deu medo, também deu desejo de libertação. Fui pai e mãe de meus irmãos mais novos. Ao todo éramos cinco. É que as duas mais velhas não contavam. Papai fugia, voltava e emprenhava mamãe. E nasciam um após outro. Cuidei de todos com certa dose de amor.
Fiquei cansada. Não havia espaço para sonhos. Entrei de sola na vida para alimentar bocas. Não houve retorno. E nem pedi.
De tudo isso sobrou uma constatação: se ninguém morreu de fome, que sejam felizes. Muito felizes. Sempre!
E parece que são.
Não sei avaliar a infância. Nem a adolescência, nem a fase adulta. Estou melhor na velhice. Sozinha e dona de mim.

E como foi em meio a tudo isso, estudar e chegar aonde você chegou?

Foi difícil. Muito difícil...
Aos cinco anos fui para um internato em Sena Madureira. Completei seis anos neste internato e ganhei de presente um copo de leite com Nescau. Mamãe não podia cuidar dos filhos por causa do trabalho escravo na loja de vovô.
Aos 12 anos fui ficar com uma irmã de mamãe que morava em Niterói. Nesta época, vivi terror e preconceito.
Tudo foi lição, entretanto. Aprendi a ser independente: Voltei para o Acre e, com atestado de arrimo de família concedido pelo Dr. Lourival Marques, comecei a trabalhar como aprendiz (de feiticeira).
Tentei estudar num curso noturno e desisti. Só havia contabilidade e eu não tinha habilidade para números e contas a pagar. Só voltei a estudar aos vinte e um anos, já casada e grávida. Fiz um supletivo de vergonha, com aulas presenciais e excelentes professores. Aos vinte e dois entrei no curso de Direito com excelente classificação. No ano seguinte fiz vestibular para o curso de Letras, também com excelente classificação.
Não dei conta de fazer os dois cursos simultaneamente e fiquei só no curso de Direito. Mas não parei por aí. Ainda fiz duas pós-graduações: Administração de Recursos Humanos e Direito do Trabalho. Enquanto estudei, por sorte, fui muito focada e dei conta do recado.

Você falou da loja de seu avô, que loja era e onde ficava?

O comércio do meu avô ficava ali na esquina da Floriano Peixoto com a Ruy Barbosa. Era um comércio de secos e molhados; rendas francesas, calçados, brinquedos, armarinho e tudo em geral. O nome da loja era casa Paraybana, em homenagem à segunda esposa.
 Mamãe era peça-chave do comércio.  Vovô não falava português. Ele conseguiu ser mais preguiçoso que eu. Além de preguiçoso era irascível!

Fala um pouco dessa experiência em Niterói... De que forma você viveu o terror e o preconceito?

Em Niterói convivi com a tia, o tio e dois filhos deles. Fui com a obrigação de ajudar nas tarefas domésticas e estudar. Ajudei e estudei. Mas o tratamento era bastante diferenciado entre nós, meninos.
Havia também uma tia da minha mãe. A mulher era uma louca. As filhas da mulher eram loucas. Fui bastante humilhada por causa do meu pai. Qualquer um se achava no direito de cuspir na minha cara.
As histórias de vida são engraçadas. Há pessoas que se vangloriam e ganham pontos com elas. Até porque despertam piedade. Não é meu caso! Lavei panos de bunda, ouvi impropérios, fui sugada na minha juventude. E daí? Contabilizei tudo de bom e de ruim para buscar a liberdade.

Com quantos anos você voltou para Rio Branco?

Antes de completados os 14 anos. Cheguei pouco antes do Natal e já no dia 27 de dezembro comecei a trabalhar.

Nesta época você tinha os livros como companhia?

Sim. Quando saí da casa da tia fui para o internato do colégio onde estudava (Colégio São José, em Niterói). A biblioteca era enorme. Muitos livros do Monteiro Lobato. A coleção Tesouros da Juventude e mais um tanto de títulos bons. Era um colégio de freiras mineiras. Freiras de Manhuaçu e Manhumirim.
Havia ordem e premiação por méritos. Comecei as minhas atividades tomando conta de uma cadela, a Zoraide. Depois passei para a horta. Depois para a cozinha. Terminei minha vida acadêmica na secretaria do colégio.
Este colégio, o São José, das Sacramentinas de Nossa Senhora foi a minha base educacional. Foi nele, também, que iniciei minha vida política (frustrada). Pertencia ao movimento Juventude Estudantil Católica (JEC). Minha professora de inglês, a Maria Helena, era comunista da hora.

Como leitora, que livros marcaram mais a sua vida?

Tudo marcou. Aprendi a ler. Às vezes não entendia o que lia, mas lia. Devorava livros, esta é a verdade.
Ainda em Niterói fiquei sabendo que mamãe estava passando necessidades. Para voltar para o Acre, creia, mamãe vendeu um fogão esmaltado (movido a carvão). Voltei e comecei a trabalhar. Depois de um tempo fiquei sócia do clube do livro. A estas alturas tinha dinheiro para comprá-los.
Li com ansiedade. Com sofreguidão, diria.  Entre muitos, O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde), Ulisses (James Joyce). Li Os Miseráveis (Victor Hugo). Li Dante, Tolstóí, Marquês de Sade. Li, li, li. À luz de velas, de lamparina e de candeeiro. Entrei nos livros de bolso. Li Tex, li CorinTellado.
Um dos livros mais marcantes foi a tragédia de Sacco e Vanzetti (contada por Katherine Anne Porter em livro traduzido no Brasil por Sebastião Uchoa Leite). E Crime e Castigo. Para uma delinquente juvenil, nada melhor. Também adorava os latinos: Vargas Llhosa, (Carlos) Fuentes, (Manuel) Scorza e Gabo (Gabriel Garcia Marques). O Clube do Livro era sortidão! Também fui sócia e limpadora de cadeiras do Cineclube do Carlitinho da Núbia. Período de ouro, diria! (continua...)


N.E. Esta entrevista foi realizada em 2012, originalmente para uma revista acreana que segue sendo gestada. Dada a extensão da conversa, ela será publicada em partes no blog (ALMANACRE), de Elson Martins.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

VÁSSIA SILVEIRA: alguns poemas

A jornalista, escritora e poeta Vássia Silveira nasceu em Belém (PA), em 1971, mas veio com o pai, o nosso grande jornalista acreano Elson Martins, ainda “moleca” para o Acre. Já passou por vários estados, e, agora, vive em Florianópolis (SC). É autora de Braboletas e Ciuminsetos (Letras Brasileiras, 2007); Quem Tem Medo do Mapinguari? (Letras Brasileiras, 2008), ambos infantis; Indagações de Ameixas (Multifoco, 2011); e uma das autoras do Balaio de Ideias (Editora Projeto, 2006). No Acre, Vássia também editou a então revista Outras Palavras.


BORDEL

Ventos e horas
trouxeram-me o nada.
Sorrisos de esquina na boca
gestos pálidos
luzes néon – ainda recendendo a éter e gozo,
matei o amor.


FIM DE CENA

Quando as luzes apagarem-se
E eu ficar a sós,
Dividirei com a dor
Do instante
A silenciosa lágrima
Que teimou
Em não ser vista.

E rasgarei, até o último fio,
As vestes que encobriram
Meu fracasso – empilhando, como peças de dominó,
Sonho após sonho.

Quando as luzes apagarem-se
E eu ficar a sós,
Acenderei o cigarro, quebrarei os copos
E andarei nua,
Sob a tempestade.


DESCOBERTA

O acalanto da noite
Espanta o bisonho pássaro
Abrindo sobre mim as asas
De insanos desejos.

No desalento das horas
O tique-taque do relógio
Invade o último pedaço
De chão e terra de minha alma.

Sobram em mim os devaneios
Da vida e da morte
Um manto singelo
Que esconde a verdade dos demônios.


PARTIDA

Uma pedra vermelha e redonda
Foi jogada no fundo do lago
A sombra em volta espia
Enquanto tua imagem se desfaz.


POESIA SEM NOME

Vísceras amorfas
despertam a ira
dos anjos

E o cheiro de naftalina
emprega o ritmo
das horas

Por todos os cantos
o pó reveste
o que havia de límpido

E enquanto a garganta
engasga o grito,
as folhas sujas do jardim
balançam ao vento.


SAMAÚMA

Quem já viu uma semente
que parece um algodão?
voa longe, voa alto
e se espalha pelo chão.

E raízes de poemas que
parecem teias de aranha?
são chamadas sapopemas
e conseguem uma façanha:

Sustentam no ar os galhos
leves ao vento, pluma
de uma árvore encantada
que se chama Samaúma.


BORBOLETA BRABA

Doce e linda
a violeta
vivia a chamar
borboleta

Mas tão braba
a borboleta
que vivia
a botar banca
pra pousar

na violeta:
- braba, boba, borboleta.


O SONHO AZUL

Eu tive um sonho azul
como as paredes
da casa de minha avó

Azul clarinho
como o vaso da janela
onde pousam as margaridas

Tão azul que o céu pareceu
pequeno e o mar
um risco num papel sem graça

Eu tive um sonho azul
E acordei assim,
todo azulado!


AMOR DE LIBÉLULA

A libélula disse:
que belo
é o libélulo!
Que disse pra
libélula:
que bela
libélula!

E aí voaram
juntos,
num belo par,
as libélulas.

*

Grávida de histórias e sonhos,
ela sustenta o mundo imaginário…
Deixe que caminhe.
Deixe que permaneça inocente,
alheia às sombras, demônios e
vermes que a acompanham.

*

Querendo extirpar
da carne
a lembrança
do outro,
Amanheceu árvore.

*

Sigo buscando
no verbo das lesmas
a escuridão

*

Meu silêncio é feito
grão de areia colorida
- daquelas que escorrem
quietas, na ampulheta.

*

E do teu cheiro
não me recordo
além do éter
Assim também
o fel
das palavras insanas:
tua boca.

Não, tu não habitas os meus sonhos.


Nota: os poemas foram retirados do site Jornal de Poesia, do Blog da Vássia e do site Lima Coelho.